sexta-feira, 21 de março de 2014

Seminário “Sagrada Família” completa 5 anos de inaugurado




Seminário “Sagrada Família” completa 5 anos de inaugurado

Há 21 de março de 2009 era inaugurado o Seminário da Diocese de Serrinha com o nome de “Sagrada Família”. Mas já em 2008 os seminaristas passaram a morar no Seminário, mesmo quando ainda estava em obras. Todos os seminaristas, no tempo da construção, também ajudavam aplicando rejunte, pintando, carregando areia para preparar o terreno para plantar a grama. Toda a grama do seminário foi plantada pelos seminaristas. Ainda hoje, a maior parte da manutenção da casa é feita pelos seminaristas.
Na sua homilia, refletindo a partir do evangelho do dia (Mt 21,33-46), dom Ottorino dizia que “hoje Jesus continua entregando sua vinha a vinhateiros. E é por isso que a Igreja segue abrindo Seminários desde o tempo de São Carlos Borromeu (que construiu o primeiro Seminário), para formar esses vinhateiros”. Na sua fala, dizia que os seminaristas não podem ser como os vinhateiros de que fala o Evangelho, mas vinhateiros novos para tempos novos. Dom Ottorino perguntava aos seminaristas eles estavam se preparando bem para cuidar da Vinha do Senhor, para corresponder com a Nova Evangelização. Dizia o bispo: “é séria esta preparação, deve ser muito séria”! Citando o Papa Francisco, dom Ottorino falava que, alguns dias atrás, o Pontífice chamava a atenção dos padres que ficam pensando em si mesmo, no seu bem-estar, na folga que querem para si, e acabam se esquecendo do serviço ao povo de Deus. Neste sentido, alertou aos seminaristas para acolherem as orientações daquele que é o Sucessor de Pedro.

Falando sobre o Seminário, dom Ottorino, dizia que além de ser um lugar, um espaço, um tempo de formação, “é uma situação de vida”. “Quem entra no Seminário, entra para viver uma nova situação de vida, um novo modo de ser e de crescer”. O bispo falava para os seminaristas de toda Província Eclesiástica, presentes na missa, que já tinha construído 4 Seminários aqui no Brasil. Os outros três foram para sua Congregação. Ponderava que o maior trabalho não é a construção de uma Casa Formativa, mas construir verdadeiros vinhateiros para Vinha do Senhor.


Um dos principais objetivos que o seminarista deve ter é a busca do exercício da oração, alertou dom Ottorino.  Disse ainda que, no tempo de formação, todas as dimensões são fundamentais, mas se falta a espiritual, que é aquela dimensão que possibilita ao discípulo-vocacionado uma íntima relação com Jesus, de nada serve a caminhada. Concluiu sua homilia dizendo que a “formação no Seminário deve estar à altura das exigências do tempo atual, pois são vários os desafios que os futuros padres têm que enfrentar nos dias de hoje”.







quarta-feira, 19 de março de 2014

Primeira pregação da Quaresma 2014 - COM JESUS NO DESERTO

COM JESUS NO DESERTO – 14/03/14



Primeira pregação da quaresma
A quaresma começa todos os anos com a narração de Jesus que se retira para o deserto por quarenta dias. Nesta meditação introdutória queremos tentar descobrir o que foi que Jesus fez neste tempo, quais são os temas presentes na narração evangélica, para aplica-los à nossa vida.
1. “O Espírito conduziu Jesus ao deserto”
O primeiro tema é o do deserto. Jesus acabou de receber, no Jordão, a investidura messiânica para evangelizar os pobres, curar os quebrantados de coração e pregar o reino (cf. Lc 4, 18s). Mas não se apressa para realizar nenhuma dessas coisas. Pelo contrário, obedecendo a um impulso do Espírito Santo, se retira no deserto onde permanece quarenta dias. O deserto em questão é o deserto da Judéia, que se estende a partir de fora das muralhas de Jerusalém até Jericó, no Vale do Jordão. A tradição identifica o lugar com o assim chamado Monte da Quarentena situado em frente ao Vale do Jordão.
Ao longo da história tem havido multidões de homens e mulheres que escolheram imitar este Jesus que se retira ao deserto. No Oriente, a começar por Santo Antônio Abade, retiravam-se nos desertos do Egito ou da Palestina; no ocidente, onde não existiam desertos de areia, se retiravam em lugares solitários, montanhas e vales remotos. Mas o convite a seguir Jesus no deserto não é dirigido somente aos monges e aos eremitas. De forma diferente, é dirigido a todos. Os monges e os eremitas escolheram um espaço de deserto, nós temos que escolher pelo menos um tempo de deserto.
A Quaresma é uma oportunidade que a Igreja oferece a todos, sem distinção, para viver um tempo de deserto sem ter que, por isso, abandonar as atividades diárias. Santo Agostinho lançou este triste apelo:
“Retorneis para dentro do vosso coração! Onde quereis ir longe de vós? Retorneis da vagabundagem que vos levou para fora do caminho; retorneis ao Senhor. Ele está pronto. Primeiro retorne ao teu coração, tu que te tornaste estranho a ti mesmo, por força de vagabundar fora: não conheces a ti mesmo, e procuras aquele que te criou! Volta, retorna ao coração, separa-te do corpo… regresse ao coração: lá examina o que talvez percebas de Deus, porque ali se encontra a imagem de Deus; na interioridade do homem habita Cristo[1]”.
Reentreis no próprio coração! Mas o que é e o que representa o coração, que tanto se fala na Bíblia e na linguagem humana? Fora do contexto da fisiologia humana, onde não é mais do que um órgão do corpo, embora vital, o coração é o lugar metafísico mais profundo de uma pessoa; é o íntimo de todo homem, onde cada um vive o seu ser pessoa, ou seja, o seu subsistir em si, em relação a Deus, do qual tem origem e no qual encontra o seu fim, aos outros homens e à criação inteira. Até mesmo na linguagem comum, o coração designa a parte essencial de uma realidade. “Ir ao coração de um problema” quer dizer ir à parte essencial dele, da qual depende a explicação de todas as outras partes do problema.
Assim, o coração de uma pessoa mostra o lugar espiritual onde é possível contemplar a pessoa na sua realidade mais profunda e verdadeira, sem véus e sem fixar-se nos seus aspectos marginais. É no coração que acontece o juízo de cada pessoa, sobre o que traz dentro de si e que é a fonte da sua bondade e da sua maldade. Conhecer o coração de uma pessoa quer dizer ter penetrado no santuário íntimo da sua personalidade, pelo qual se conhece aquela pessoa pelo que realmente ela é e vale.
Retornar ao coração, portanto, significa retornar ao que há de mais pessoal e interior em nós. Infelizmente, a interioridade é um valor em crise. Algumas causas desta crise são antigas e inerentes à nossa própria natureza. A nossa “composição”, ou seja, o sermos constituídos de carne e espírito, faz com que sejamos como um plano inclinado, porém, inclinado, para o exterior, o visível e a multiplicidade. Como o universo, depois da explosão inicial (o famoso Big Bang), também nós estamos em fase de expansão e distanciamento do centro. Estamos perpetuamente “de saída”, por meio daquelas cinco portas ou janelas que são os nossos sentidos.
Santa Teresa de Ávila escreveu um trabalho intitulado O castelo interior que é certamente um dos frutos mais maduros da doutrina cristã da interioridade. Mas existe, infelizmente, também um “castelo exterior”, e hoje constatamos que também é possível estar trancados neste castelo. Trancados fora de casa, incapazes de reentrar. Prisioneiros da exterioridade! Quantos de nós deveríamos fazer própria a amarga constatação que Agostinho fazia sobre a sua vida antes da conversão: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Sim, porque tu estavas dentro de mim e eu fora. Ali te buscava. Deformado, me jogava nas belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, e não estava contigo. Mantinham-me distante de ti as tuas criaturas, inexistentes se não existissem em ti[2]”.
Aquilo que se faz no exterior é exposto ao perigo quase inevitável da hipocrisia. O olhar de outras pessoas tem o poder de desviar a nossa intenção, como certos campos magnéticos fazem desviar as ondas. A ação perde a sua autenticidade e a sua recompensa. O parecer toma a dianteira do ser. É por isso que Jesus nos convida a jejuar e dar esmolas e orar ao Pai “no segredo” (cf. Mt 6, 1-4).
A interioridade é o caminho para uma vida autêntica. Fala-se tanto hoje de autenticidade e se faz disso o critério de vitória ou não da vida. Mas onde está, para o cristão, a autenticidade? Quando é que uma pessoa é realmente ela mesma? Somente quando acolhe, como medida, Deus. “Fala-se tanto – escreve o filósofo Kierkegaard – de vidas desperdiçadas. Mas desperdiçada é somente a vida daquele homem que nunca se deu conta, porque nunca teve, no sentido mais profundo, a impressão de que existe um Deus e que ele, justo ele, o seu eu, está diante deste Deus[3]”.
De um retorno à interioridade têm necessidade especialmente as pessoas consagradas ao serviço de Deus. Em um discurso dado aos superiores de uma congregação religiosa contemplativa, Paulo VI disse:
“Hoje estamos vivendo num mundo que parece tomado por uma febre que se infiltra até no santuário e na solidão. Barulhos e estrondos invadiram todas as coisas. As pessoas não conseguem mais recolher-se. Vítimas de milhares de distrações, elas dissipam normalmente as suas energias atrás das várias formas da cultura moderna. Jornais, revistas, livros invadem a intimidade das nossas casas e dos nossos corações. É mais difícil do que antes encontrar uma oportunidade para aquele recolhimento no qual a alma consegue estar plenamente ocupada em Deus”.
Mas procuremos também ver como fazer, concretamente, para reencontrar e conservar o hábito da interioridade. Moisés era um homem muito ativo. Mas está escrito que ele tinha mandado construir uma tenda portátil e em cada etapa do êxodo fixava a tenda fora do acampamento e regularmente entrava nela para consultar o Senhor. Ali, o Senhor falava com Moisés “cara a cara, como um homem fala com outro” (Ex 33, 11).
Mas até isso nem sempre é possível fazer. Nem sempre é possível retirar-se a uma capela ou a um lugar solitário para reencontrar o contato com Deus. Por isso, São Francisco de Assis sugere outra solução mais ao alcance das mãos. Enviando os seus freis pelos caminhos do mundo, dizia: Nós temos um eremitério sempre conosco onde quer que estejamos e toda vez que o queiramos podemos, como eremitas, reentrar neste eremitério. “Irmão corpo é o eremitério e a alma o eremita que ali habita dentro para orar a Deus e meditar”. É como ter um deserto sempre “em casa” ou melhor “dentro de casa”, onde é possível retirar-se com o pensamento em cada momento, até mesmo andando pelo caminho.
Concluímos esta primeira parte da nossa meditação escutando, como dirigidas a nós, a exortação que Santo Anselmo de Aosta dirigiu ao leitor em uma sua famosa obra:
“Ânimo, mísero mortal, fuja por um curto período das tuas ocupações, deixa um pouco os teus pensamentos tumultuados. Afasta nesse momento os graves problemas e coloca de lado as tuas extenuantes atividades. Espera um pouco Deus e descansa nele. Entra no íntimo da tua alma, exclua tudo, exceto Deus e o que te ajude a procura-lo, e, fechada a porta, diga a Deus: Busco o teu rosto. O teu rosto eu procuro, Senhor[4]”.
2. Os jejuns agradáveis ​​a Deus
O segundo grande tema presente na narração de Jesus no deserto é o jejum. “Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome” (Mt 4, 1b). O que significa para nós, hoje, imitar o jejum de Jesus? Antes, com a palavra jejum se entendia somente o limitar-se nos alimentos e nas bebidas e o abster-se das carnes. Este jejum alimentar conserva ainda a sua validez e é altamente recomendado, quando, é claro, a sua motivação é religiosa e não apenas higiênica ou estética, mas não é mais o único e nem sequer o mais necessário.
A forma mais necessária e significativa de jejum chama-se hoje sobriedade. Privar-se voluntariamente de pequenos ou grandes confortos, do que é inútil e às vezes também prejudicial à saúde. Este jejum é solidariedade com a pobreza de tantos. Quem não lembra as palavras de Isaías que a liturgia nos faz ouvir no começo de toda Quaresma?
“Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi:
em repartir o teu pão com o faminto,
em recolheres em tua casa os pobres desabrigados,
em vestires aquele que vês nu
e em não te esconderes daquele que é tua carne?” (Is 58, 6-7).
Tal jejum também é uma resposta a uma mentalidade consumista. Em um mundo, que fez do conforto supérfluo e inútil um dos fins da própria atividade, renunciar ao supérfluo, saber privar-se de algo, deixar de recorrer sempre à solução mais cômoda, do escolher a coisa mais fácil, o objeto de maior luxo, viver, em suma, com sobriedade, é mais eficaz do que impor-se penitências artificiais. É, acima de tudo, justiça para com as gerações que virão depois da nossa, que não devem ser obrigadas a viver das cinzas do que nós consumimos e desperdiçamos. A sobriedade também tem um valor ecológico, de respeito pela criação.
Mais necessário do que o jejum de alimentos é hoje também o jejum das imagens. Vivemos em uma civilização da imagem; viramos devoradores de imagens. Por meio da televisão, a imprensa, a publicidade, deixamos entrar, em jorros, imagens dentro de nós. Muitas delas não são saudáveis, transmitem violência e maldade, não fazem mais que incitarem os piores instintos que nós trazemos dentro. São embaladas expressamente para seduzir. Mas talvez o pior é que dão uma ideia falsa e irreal da vida, com todas as consequências que se derivam no impacto depois com a realidade, especialmente para os jovens. Pretende-se inconscientemente que a vida ofereça tudo o que a publicidade apresenta.
Se não criamos um filtro, uma barreira, transformamos, em um curto espaço de tempo, a nossa fantasia e a nossa imaginação em um depósito de lixo. As imagens ruins não morrem quando chegam ao nosso interior, mas fermentam. São transformadas em impulsos para a imitação, condicionam terrivelmente a nossa liberdade. Um filósofo materialista, Feuerbach, disse: “O homem é o que ele come”; hoje, talvez, devêssemos dizer: “O homem é o que ele olha”.
Outro destes jejuns alternativos, que podemos fazer durante a Quaresma, é aquele das palavras más. São Paulo recomenda: “Não saia dos vossos lábios nenhuma palavra inconveniente, mas, na hora oportuna, a que for boa para edificação, que comunique graça aos que a ouvirem” (Efésios 4, 29).
Palavras inconvenientes não são só os palavrões; são também as palavras cortantes, negativas que iluminam sistematicamente o lado fraco do irmão, palavras que semeiam discórdia e desconfianças. Na vida de uma família ou de uma comunidade, estas palavras têm o poder de fechar cada um em si mesmo, de congelar, criando amargura e ressentimento. Literalmente, “mortificam”, ou seja, causam a morte. São Tiago dizia que a língua está cheia de veneno mortal; com ela podemos abençoar a Deus ou amaldiçoa-lo, ressuscitar um irmão ou mata-lo (cf. Tg 3, 1-12). Uma palavra pode ser pior do que um soco.
No Evangelho de Mateus aparece uma palavra de Jesus que abalou os leitores do Evangelho de todos os tempos: “Eu vos digo que toda palavra sem fundamento que os homens disserem, darão contas no Dia do Julgamento” (Mt 12, 36). Jesus certamente não pretende condenar toda palavra inútil no sentido de não “estritamente necessária”. Tomado no sentido passivo, o termo argon (a = sem, ergon = obra) usado no Evangelho indica a palavra privada de fundamento, portanto, a calúnia; tomado em sentido ativo, significa a palavra que não fundamenta nada, que não serve nem mesmo para a necessária descontração. São Paulo recomendava ao discípulo Timóteo: “Evita o palavreado vão e ímpio, já que os que o praticam progredirão na impiedade” (2 Tm 2,16). Uma recomendação que o Papa Francisco nos repetiu mais de uma vez.
A palavra inútil (argon) é o oposto da palavra de Deus, que é de fato definida, pelo contrário, energes, (1Tess 2,13; Hb 4,12), ou seja, eficaz, criativa, cheia de energia e útil a tudo. Neste sentido, o que os homens terão de dar conta no dia do juízo é, em primeiro lugar, a palavra vazia, sem fé e sem unção, pronunciada por quem deveria, pelo contrário, pronunciar as palavras de Deus que são “espírito e vida”, especialmente no momento em que exercita o ministério da Palavra.
3. Tentado por Satanás
Passemos ao terceiro elemento da narração evangélica no qual queremos refletir: a luta de Jesus contra o demônio, as tentações. Em primeiro lugar uma pergunta: existe o demônio? Ou seja, a palavra demônio indica realmente alguma realidade pessoal, dotada de inteligência e vontade, ou é simplesmente um símbolo, um modo de dizer para indicar a soma do mal moral no mundo, o inconsciente coletivo, a alienação coletiva e assim por diante?
A principal evidência da existência do demônio nos Evangelhos não está nos vários episódios de libertação de possessos, porque na interpretação destes fatos pode ter influenciado as crenças antigas sobre a origem de certas doenças. Jesus é tentado no deserto pelo demônio, esta é a prova. A prova é também os muitos santos que lutaram na vida contra o príncipe das trevas. Eles não são uns “Dom Quixote” que lutaram contra moinhos de vento. Pelo contrário, eram homens muito concretos e com a psicologia muito saudável. São Francisco de Assis uma vez confidenciou a um companheiro: “Se os freis soubessem quantas ou quais tribulações eu recebo dos demônios, não haveria um só que não iria começar a chorar por mim[5]“.
Se para muitos é um absurdo crer no demônio é porque se baseiam em livros, passam a vida nas bibliotecas ou em escrivaninhas, enquanto o demônio não está interessado nos livros, mas nas pessoas, especialmente, é claro, nos santos.
O que pode saber sobre Satanás quem nunca teve que lidar com a realidade de satanás, mas somente com a sua ideia, ou seja, com as tradições culturais, religiosas, etnológicas sobre Satanás? Esses costumam tratar este assunto com grande confiança e superioridade, descartando tudo como “obscurantismo medieval”. Mas é uma falsa segurança. Como alguém que se gabasse de não ter nenhum medo do leão, aduzindo como prova o fato de que já o viu tantas vezes pintado ou fotografado e nunca se assustou.
É completamente normal e coerente que não acredite no diabo, quem não crê em Deus. Seria realmente trágico se alguém que não crê em Deus, cresse no diabo! No entanto, pensando bem, é o que acontece em nossa sociedade. O demônio, o satanismo e outros fenômenos conexos são hoje de grande atualidade. O nosso mundo tecnológico e industrializado está cheio de magos, feiticeiros de cidade, ocultismo, espiritismo, adivinhadores de horóscopos, vendedores de feitiços, de amuletos, bem como de verdadeiras seitas satânicas. Expulso pela porta, o diabo voltou pela janela. Ou seja, expulso pela fé, voltou com a superstição.
A coisa mais importante que a fé cristã tem a dizer-nos, no entanto, não é que o demônio existe, mas que Cristo venceu o demônio. Cristo e o demônio não são para o cristão dois princípios iguais e contrários, como em certas religiões dualísticas. Jesus é o único Senhor; Satanás não é nada mais do que uma criatura “apodrecida”. Se lhe foi concedido ter poder sobre os homens, é para que os homens possam ter a possibilidade de fazer livremente uma escolha de campo e também para que “não se encham de soberba” (cf. 2 Cor 12,7), achando-se auto-suficientes e sem a necessidade de algum redentor. “O velho Satanás é louco” diz um canto espiritual negro. “Deu um tiro para destruir a minha alma, mas errou a mira e destruiu, em vez disso, o meu pecado”.
Com Cristo não temos nada a temer. Nada e ninguém pode nos prejudicar, se nós mesmos não o quisermos. Satanás, dizia um antigo padre da Igreja, depois da vinda de Cristo, é como um cão amarrado no quintal: pode latir e atacar o quanto quiser; mas, se não somos nós que chegamos perto, não pode morder. Jesus no deserto se libertou de Satanás para libertar-nos de Satanás!
Os Evangelhos nos falam de três tentações: “Se tu és o Filho de Deus, diga para essas pedras se transformarem em pão”; “Se eres o Filho de Deus, atira-te para baixo”; “Todas estas coisas eu te darei, se, prostrando-te, me adorares”. Elas têm um objetivo único e comum a todas: desviar Jesus da sua missão, desvia-lo do objetivo pelo qual veio à terra; substituir o plano do Pai por outro diferente. No batismo, o Pai tinha apontado a Cristo o caminho do Servo obediente que salva com a humildade e o sofrimento; Satanás propõe um caminho de glória e de triunfo, o caminho que todos então esperavam do Messias.
Ainda hoje, todo o esforço do diabo é de desviar o homem do objetivo pelo qual veio ao mundo que é o de conhecer, amar e servir a Deus nesta vida para gozá-lo depois na outra. Distraí-lo, ou seja, atraí-lo para outro lugar, para outra direção. Satanás, porém, é também astuto; não aparece pessoalmente com chifres e cheiro de enxofre (seria muito fácil reconhece-lo); serve-se das coisas boas levando-as ao excesso, absolutizando-as e transformando-as em ídolos. O dinheiro é uma coisa boa, como o é o prazer, o sexo, o comer, o beber. Mas se eles se transformam na coisa mais importante da vida, o fim, não mais meios, então se tornam destrutivos para a alma e muitas vezes também para o corpo.
Um exemplo particularmente relevante para o tema é o divertimento, a distração. O descanso é uma dimensão nobre do ser humano; Deus mesmo recomendou o repouso. O mal é fazer do jogo o objetivo da vida, viver a semana como espera do sábado à noite ou do jogo no estádio no domingo, por não mencionar outros passatempos muito menos inocentes. Neste caso, a diversão muda de significado e, mais do que servir para o crescimento humano e aliviar o estreasse e o cansaço, aumenta-os.
Um hino litúrgico da Quaresma exorta a usar com mais moderação, neste tempo, as “palavras, alimentos, bebidas, sono e diversões”. Este é um tempo para redescobrir por que viemos ao mundo, de onde viemos, aonde iremos, que rota estamos seguindo. Senão, pode acontecer conosco o que aconteceu com o Titanic ou, mais próximo de nós no tempo e no espaço, com a Costa Concordia.
4. Por que Jesus foi para o deserto
Tentei destacar os ensinamentos e exemplos que nos chegam de Jesus para este tempo da Quaresma, mas tenho que dizer que até agora não falei do mais importante de todos. Por que Jesus, depois do seu batismo, foi para o deserto? Para ser tentado por Satanás? Não, nem sequer pensava nisso; ninguém vai de propósito buscar tentações e ele mesmo nos ensinou a rezar para não sermos levados à tentação. As tentações foram uma iniciativa do demônio, permitidas pelo Pai, para a glória do seu Filho e como ensinamento para nós.
Foi ao deserto para jejuar? Também, mas não principalmente para isso. Foi para rezar! Sempre quando Jesus se retirava em lugares desertos era para orar ao seu Pai. Foi para sintonizar-se, como homem, com a vontade divina, para aprofundar a missão que a voz do Pai, no batismo, lhe tinha feito vislumbrar: a missão do Servo obediente chamado a redimir o mundo com o sofrimento e a humilhação. Foi em definitiva para orar, para estar em intimidade com o seu Pai. E isso é também o objetivo principal da nossa Quaresma. Foi ao deserto pelo mesmo motivo pelo qual, segundo Lucas, um dia, mais tarde, subiu ao Monte Tabor, ou seja, para orar (Lc 9, 28).
Não se vai ao deserto somente para deixar algo – o barulho, o mundo, as ocupações -; vai-se principalmente para encontrar algo, ou melhor, Alguém. Não se vai somente para reencontrar a si mesmo, para colocar-se em contato com o próprio eu profundo, como em tantas formas de meditações não cristãs. Estar a sós consigo mesmo pode significar encontrar-se com a pior das companhias. O crente vai ao deserto, desce ao próprio coração, para renovar o seu contato com Deus, porque sabe que “no homem interior habita a Verdade”.
É o segredo da felicidade e da paz nesta vida. O que mais deseja um apaixonado do que estar a sós, em intimidade, com a pessoa amada? Deus é apaixonado por nós e deseja que nós nos apaixonemos por ele. Falando do seu povo como de uma esposa, Deus disse: “A conduzirei ao deserto e falarei ao seu coração” (Os 2,16). Sabe-se qual é o efeito do enamoramento: todas as coisas e todas as outras pessoas ficam pra trás, em segundo plano. Há uma presença que preenche tudo e faz todo resto “secundário”. Não isola dos outros, que, de fato, torna ainda mais atento e disponível para com os outros, mas como de reflexo, por redundância do amor. Oh, se nós homens e mulheres de Igreja descobríssemos o quanto está perto de nós, ao alcance das mãos, a felicidade e a paz que buscamos neste mundo!
Jesus está esperando por nós no deserto: não o deixemos sozinho em todo esse tempo.

[Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira]
[1] S. Agostinho, In Ioh. Ev., 18, 10 (CCL 36, p. 186). [Trad.Livre]
[2] S. Agostinho, Confessioni, X, 27. [Trad.Livre]
[3] S. Kierkegaard, La malattia mortale, II, in Opere, edição de C. Fabro, Florência 1972, p. 663. [Trad.Livre]
[4] S. Anselmo, Proslogion, 1, (Opera omnia, 1, Edimburgo 1946, p.97). [Trad.Livre]

[5] Cf. Speculum perfectionis, 99 (FF 1798).

FONTE: http://www.cantalamessa.org/?lang=pt

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A FÉ PRECEDE A MORAL

A FÉ PRECEDE A MORAL



Não é difícil perceber que vivemos em um período de apatia no que tange à catequese. Os nossos adolescentes e jovens sonham com o dia da crisma não pela recepção do sacramento que os confirma na fé, mas para se sentirem libertos de uma catequese frequentemente enfadonha, com pouca chama de Vida.
Somos tentados a procurar “bodes expiatórios”, sobre os quais possamos colocar a culpa de tal problema: os catequistas, que não têm a devida formação; os padres, que não se preocupam e sequer visitam as salas de catequese; o bispo, que só aparece no dia da crisma dando bronca em todo mundo... Todos esses problemas podem ser reais e precisam mesmo ser resolvidos com urgência.
Em algumas paróquias, procura-se fazer uma boa conscientização dos jovens acerca das suas responsabilidades pós-crimais; da importância de colaborar com a Igreja após o sacramento da maturidade, etc. Outras incentivam a prática de uma espécie de “estágio” em uma pastoral específica durante o curso crismal, para que os crismandos de adaptem ao compromisso que deverão assumir. Tudo isso é bom e necessário, porém não consegue conter a enorme evasão pós-crisma.
A mim parece que para além dos problemas que já foram citados, há um que frequentemente passa despercebido: apresentamos uma moral (muitas vezes muito rígida) em vez de uma pessoa: Jesus Cristo. Expomos um conjunto de deveres dos que serão crismados e esquecemos do anúncio essencial: encarnação, vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Não quero dizer que a moral não seja importante, mas somente que ela deve ser um dos resultados do encontro com Jesus e não o objeto da nossa educação católica.
Neste ínterim, podemos concluir que enquanto não desenvolvermos uma catequese mais mística, que promova o encontro pessoal com Cristo, continuaremos fracassando. Se não apresentarmos a PESSOA de Jesus nas nossas catequeses, nunca conseguiremos que os nossos catequizandos tenham um encontro íntimo com o Deus e o seu “pater ’emon” (Pai nosso) não será uma expressão de relação estreita de um filho com o pai, mas simplesmente uma oração que eles são obrigados a decorar se quiserem receber os sacramentos.
Se queremos salvar a Igreja, comecemos salvando a catequese!


Rodrigo Santos de Oliveira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Reflexão sobre VOCAÇÃO

Trago aqui algumas pistas de reflexão sobre a VOCAÇÃO na Igreja hoje.
Do Livro Construir cultura vocacional de Amedeo Cencini.


1. Deus chama porque ama, chama amando ou chamando, ama. Faz parte da natureza de Deus chamar, visto que é manifestação de seu amor, de sua identidade profunda como Mistério bom.
2. A vocação não é apenas revelação do homem em Deus, mas também de Deus no homem.
3. Deus chama a todos, não existe criatura não chamada; o que ou quem não é chamado simplesmente não existe. E o seu chamado é imprevisível e misterioso. Sempre para além de nossas lógicas e muito mais à frente de nossas expectativas humanas.
4. Deus chama sempre, a cada momento. A vocação não é um fato puramente juvenil. Por isso, a vocação está ligada à vocação permanente. Quem leva a sério a própria vocação permanente não pode fazer animação vocacional, ao passo que quem não faz animação vocacional não está bastante estimulado a fazer a formação permanente.
5. Criação e redenção são duas polaridades de toda vocação. Cada um é chamado exatamente a realizar não somente o projeto das origens na própria pessoa, mas também o plano da salvação.
6. Podemos dizer que existe, na Igreja, uma teologia de tal espécie? Não somente nas salas universitárias pontifícias ou nos cursos para animadores vocacionais, mas na catequese comum, na pastoral cotidiana, até tornar-se mentalidade universal e partilhada por todos? Se não existe essa mentalidade, não pode haver nenhuma animação vocacional correspondente, unitária e solidamente construída, e não temos nenhum direito, portanto, de lamentar-nos da crise vocacional.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Por uma cultura vocacional


CONSTRUIR A CULTURA VOCACIONAL


A Pastoral Vocacional, na Igreja, foi um meio de incentivar as vocações num momento de forte CRISE vocacional. Hoje, precisamos repensar a maneira de agir na Pastoral Vocacional, deixando o modelo antigo para trás. Pois não basta ter a pastoral como "corrida contra o tempo perdido", contra uma época em que não se falava sobre Vocações Sacerdotais.  Hoje se faz necessário "construir a cultura vocacional". Para isso, precisamos, na visão de (CENCINI 2013), renovar a MENTALIDADE, a SENSIBILIDADE  e a maneira de agir (PRÁXIS).
Cencini diz: "O chamado do Pai é, portanto, um chamado à vida, que é dirigido a todos os 'viventes'. (...) Ao mesmo tempo, o chamado que vem de Deus é um apelo único-singular-irrepetível, que atinge o indivíduo, feito propositadamente para ele e talhado sob sua medida, como Deus a vê; é o sonho do Pai a respeito daquele seu filho amado, é o nome que Deus lhe deu e que escreveu na palma da própria mão, Palavra dita uma única vez e jamais repetida!"


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

SÍNODO DIOCESANO: Caminhar Juntos


CONVERSÃO PASTORAL NA DIOCESE DE SERRINHA-BA

Visita Pastoral de dom Ottorino em Barrocas-Ba


Impressionante como a Diocese de Serrinha está em sintonia com o pensamento do Papa Francisco. Desde o início da Visita Pastoral de Dom Ottorino em todas as Comunidades da Diocese já se mostrava um forte apelo de mudança pastoral. A Visita Pastoral foi um fator importante para ter uma ideia de como estão as comunidades, as pastorais e movimentos.
A palavra que a Igreja está vivendo e revendo nos últimos tempos, nas últimas décadas é EVANGELIZAÇÃO; para tal coisa acontecer é necessário mudar algumas atitudes que não influenciam mais nos dias de hoje.
A América Latina com os seus Bispos sempre se preocupou em dar uma resposta ao momento de desânimo por parte dos fiéis que deixam a Igreja e não mais vive a experiência de Cristo. O ponto de partida para reflexão pastoral da Igreja tem sido o Documento de Aparecida. O pedido é: mudar as estruturas para uma Nova Evangelização! O Papa Francisco quando escreve a sua Exortação Apostólica sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Atual, EVANGELII GAUDIUM, a Alegria do Evangelho, deseja uma Igreja para o presente e para o futuro com características de saída. Ao escrever a Exortação, faz citando o Documento de Aparecida e suas linhas principais de “conversão pastoral”.  Aqui é que entra a Diocese de Serrinha em comunhão com o pensamento do Papa, pois estamos vivendo uma experiência forte de “Conversão Pastoral” com o SÍNODO DIOCESANO. É como se Dom Ottorino e Francisco conversassem antes de traçar o plano pastoral para a Igreja, um para a Igreja Particular – Diocese – outro para a Igreja Universal. Isto é comunhão!
Para Dom Ottorino, a intenção do Sínodo é “caminhar na mesma direção, com o objetivo da Nova Evangelização”. E o papa Francisco, na Exortação diz: “dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.” Temos a certeza de que, com a Visita Pastoral, com o SÍNODO Diocesano e com os trabalhos pastorais dos Padres nas Paróquias, estamos no caminho certo para uma Nova Evangelização.
O momento forte da Igreja de anunciar o evangelho é este! O momento é de “conversão pastoral”, de “apelo à renovação”, de a Igreja “aprofundar a consciência de si mesma” para não perder o foco principal: Anunciar o Evangelho a todas as Nações!

Como cristão católico, que contribuição posso oferecer para que o SÍNODO aconteça como deve acontecer? Na Paróquia que participo, 
na comunidade, na pastoral, nos grupos e movimentos, a participação é fundamental, pois SÍNODO significa: “Caminhar juntos”.

Foto/ Diocese de Serrinha/facebook




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O chamado é Deus quem faz

É Deus quem chama

A vocação é um dom de Deus! Pois é Ele quem chama! Este chamado, Deus o faz de várias formas e a quem ele desejar. O dom de servir numa vocação específica é um ato de amor, pois comporta certo tipo de sacrifício.
Antes de tudo, devemos saber que o primeiro chamado que Deus fez foi à vida, à existência humana. Depois um chamado para cuidar bem das coisas criadas. Com Adão e Eva, homem e mulher foram feitos um para o outro para constituir a família. Com o passar do tempo, o homem, por ocasião do pecado, foi se esquecendo de Deus. Porém, o Pai, mais uma vez, chama aqueles que Ele quer para guiar um povo; para conduzir um povo escolhido e consagrado para uma terra desconhecida.
No Antigo Testamento, temos vários exemplos de vocacionados: Adão e Eva, Noé, Abraão, Isaac e Jacó, Moisés, Josué, os profetas, os reis, os sacerdotes, etc; são vários os testemunhos que dispomos na Bíblia. Vemos no Novo Testamento vários exemplos de vocações: os Apóstolos, os discípulos, os diáconos (At 6,3-5), os celibatários que surgem com o conselho que Paulo dá de ficar solteiros (1Cor 7,7-8).
Com o passar do tempo e o  cristianismo crescendo pelo mundo inteiro, vão aparecendo conforme a necessidade outras vocações: os bispos já existiam com a sucessão apostólica, os presbíteros como assistentes dos bispos e os diáconos para a caridade; os monges e as monjas, os frades e as freiras. São homens e mulheres que decidem ficar solteiros para seguir e servir mais de perto a Cristo.
Hoje, por obra do Espírito Santo, surgem na Igreja os consagrados e consagradas numa comunidade de vida específica, podem ser celibatários ou não. Diante de tudo isso, devemos ter presente que não é a pessoa que chama a si mesma, mas é Cristo quem chama aqueles que ele mesmo quer (Mc 3,13). Este chamado que Cristo faz à pessoa para o serviço ao próximo na Igreja é um serviço de amor do homem ao próprio homem.



Logo, cabe a cada batizado descobrir sua vocação e missão para que o Reino de Deus seja anunciado. O jovem deve acreditar no chamado que Deus o faz e doar sua vida a Cristo para que o Evangelho seja difundido nos corações dos homens.